Emiliano José A vida política nunca é feita de linhas retas. Há curvas, idas e vindas. Waldir sai do Ministério da Defesa num momento, outro, de ataque cerrado de uma parte considerável da mídia ao governo Lula. Volto a dizer: a elite conservadora brasileira, de que faz parte a corrente hegemônica da mídia concentrada no Centro-Sul, jamais vai aceitar Lula na Presidência da República.
Os números positivos da economia, a melhoria das condições de vida, a auto-estima fortalecida do povo brasileiro, nada disso importa.Interessa é buscar ganchos para superdimensionar episódios, jogando-os sempre no colo do presidente Lula.Waldir sai nesse contexto.Não importa que o problema seja estrutural. Que seja um acúmulo de anos. Que seja decorrência de gestões tucano-pefelistas, que deixaram a infra-estrutura ir pro ralo.Toda essa análise parece que não cabe ao jornalismo. Os fatos são recortados segundo as conveniências, e explorados segundo uma nítida visão política destinada a desgastar o governo Lula. O jornalismo brasileiro é um dos mais partidarizados do mundo. Se não deu certo nos dois anos anteriores, quem sabe agora...Ninguém há de negar a existência de uma crise no setor aéreo. A deficiência estrutural na rede física e uma cadeia de comando mal articulada explicam essa crise. E o governo, por tudo que faça, não irá resolver isso de uma hora para outra. Como não tem condições de resolver de súbito o grave problema das estradas brasileiras, grande parte delas em situação muito precária. Há um programa de desenvolvimento em andamento que pretende enfrentar tais problemas numa perspectiva de médio prazo.A exploração criminosa dos sentimentos dos familiares das vítimas, a exacerbação do clima emocional, é algo que está à vista e que visa, sempre, longe de uma cobertura isenta, atingir o governo, particularmente o presidente Lula. E enxergaram em Waldir Pires, no primeiro momento, a cabeça a ser pedida. Waldir sai, no entanto, certo do dever cumprido. Sabia, quando aceitou o cargo de ministro da Defesa, que este era um ministério a ser construído.Existia apenas de fachada. Não tinha atribuições, como não tem, de controlar o tráfego aéreo, como sabido de todos, inclusive da mídia. Tal atribuição era e é da Aeronáutica, com toda autonomia.Com toda lealdade ao presidente Lula, que persiste e persistirá, Waldir apresentou ao governo não só caminhos de enfrentamento dos problemas do tráfego aéreo, como uma nova concepção para o Ministério da Defesa, voltada para a compreensão do papel estratégico do Brasil na América Latina e no mundo.Deixará esse legado nas mãos do presidente, que naturalmente o levará em conta.Waldir conhece bem a vida política. Sabe que ela não tem bem-querer. Que, em determinados momentos, é de uma crueldade ímpar.Tem consciência de que Lula, se pudesse, não o tiraria.Ninguém desconhece o apreço do presidente por Waldir. O peso do bombardeio midiático, particularmente da mídia televisiva global, é que teria levado Lula a tal decisão. Eu imagino o encontro dos dois, ontem: pleno de emoção e, apesar da decisão, a reafirmação de uma amizade e solidariedade inabaláveis.Waldir não se abala com facilidade. O século XX, com todas suas esperanças, decepções e lutas, o temperou de modo definitivo.É um personagem digno da lembrança da máxima de Guevara: é duro e nunca perde a ternura. É confortante vê-lo, já com suas várias décadas de vida e de política, com tantoânimo, tanta esperança, com tanta confiança de que outro mundo e outro Brasil são possíveis.Ele continua a ser um dos nossos inspiradores em busca da realização desse sonho.