Morre Emanuel, o adolescente cubano que tinha um enorme e raro tumor no rosto, após ser operado nos EUA

Emanuel tinha rara condição genética que provocava formação de tumores

Emanuel tinha rara condição genética que provocava formação de tumores
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Emanuel Zayas, o adolescente cubano de 14 anos que tinha um tumor de 4,5 kg no rosto, morreu na última sexta-feira, informou seu médico em um comunicado pelo Facebook após os pais do garoto darem sua permissão para que fosse anunciado publicamente seu falecimento.

Emanuel havia sido levado aos Estados Unidos por seus pais para passar por uma operação complexa e cara para retirada do tumor, com um custo total, entre medicamentos e internação, estimado em US$ 200 mil (R$ 640 mil).

“Aparentemente, o estresse fisiológico da cirurgia foi demais para sua anatomia já comprometida. Nossa esperança de salvar sua vida e dar a ele uma condição de vida melhor não se concretizou”, afirmou Robert Marx, chefe de cirurgia maxilofacial do Sistema de Saúde da Universidade de Miami, na Flórida, em sua conta no Facebook.

“A família optou por doar seu corpo para a pesquisa médica, na esperança de que se aprenda mais sobre esse mal raro e que isso ajude pessoas em todo o mundo.”
                                                                                             ‘Impotência’

Família começou a notar os sintomas quando o menino tinha 2 anos

Família começou a notar os sintomas quando o menino tinha 2 anos
BBC BRASIL

No início de janeiro, a BBC Mundo entrevistou Emanuel e seus pais, que descreveram como o adolescente desenvolveu o tumor que cobria a maior parte de seu rosto e obstruía seu campo visual, as vias nasais e a boca.

Também já não permitia que ele mantivesse o equilíbrio da cabeça ou caminhasse, além de dificultar a alimentação, o que fez com que o adolescente ficasse desnutrido.

“Tudo começou quando ele tinha 12 anos. Surgiu uma bolinha em seu nariz que pensamos que era acne, mas foi crescendo e crescendo até chegar a esse ponto”, contou então sua mãe, Melvis Vizaino.

Ela e seu marido saíram em busca de possíveis soluções na ilha, mas não encontraram respostas. “É horrível ver um filho se deformar assim. Estávamos desesperados com nossa impotência.”

Em 2013, um grupo de missionários americanos visitou a igreja evangélica que estava ajudando a família na Província de Villa Clara, no centro de Cuba. Eles conheceram o caso e fizeram a ponte com especialistas nos Estados Unidos.

                                                                                              Um caso atípico

Médicos temiam pela vida de Emanuel se ele não fizesse a operação

Médicos temiam pela vida de Emanuel se ele não fizesse a operação
BBC BRASIL

Quase quatro anos depois, seus pais conheceram Marx, que havia operado tumores semelhantes. O médico americano diagnosticou uma condição genética rara e não hereditária: a displasia fibrosa poliostótica.

Isso faz com que um tecido fibroso cresça no lugar de um osso, o que facilita deformações nas extremidades do corpo e o surgimento de câncer – um tumor já havia sido retirado de seu quadril quando ele era bem pequeno.

Emanuel passou a ser tratado para inibir o surgimento de novos tumores, mas, quando ele entrou na adolescência, surgiu a protuberância em seu nariz. “É um caso atípico e repleto de riscos, mas a operação é necessária”, disse na época.

Temia-se que o tumor obstruísse sua boca, única via que restava para ele se alimentar ou respirar, e que o peso de sua cabeça levasse a uma fratura fatal em seu pescoço. Emanuel foi operado em 12 de janeiro no Hospital Jackson de Miami em uma longa cirurgia.

“Na noite anterior, visitei Emanuel e vislumbrei uma esperança a partir dos reflexos de suas pupilas e do seu tônus muscular facial. Mas fui informado na manhã seguinte que sua condição piorou bastante, seus rins e fígado falharam”, publicou Marx.

Emanuel havia estudado até o ano passado, quando o tumor impediu que continuasse frequentando a escola. Dizia que o que mais queria fazer quando não tivesse mais o tumor era voltar a estudar. Queria ser arquiteto ou cientista de computação.

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Febre amarela urbana foi erradicada com política truculenta há 111 anos

Febre amarela é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti

Febre amarela é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti
Thinkstock

No fim do século 19, as condições de saneamento nos principais centros urbanos do País eram insalubres. Mesmo na antiga capital, o Rio, o problema era grave e motivo direto das recorrentes epidemias de febre amarela. A situação era tão séria que muitos navios estrangeiros simplesmente evitavam aportar por aqui. O Brasil recebeu a alcunha de “túmulo dos estrangeiros”.

Rodrigues Alves assumiu a Presidência da República em 1902 disposto a mudar radicalmente aquela situação. Já no ano seguinte, Oswaldo Cruz foi chamado para assumir a diretoria-geral de Saúde Pública, um cargo similar ao de atual ministro da Saúde. Sua missão era acabar de vez com a febre amarela. O médico logo criou o Serviço de Profilaxia, que colocou nas ruas as chamadas brigadas de mata-mosquitos — agentes sanitários que tinham por objetivo eliminar os focos do vetor da época, o Aedes aegypti. O modelo de ação era autoritário: agentes entravam à força nas casas para destruir os locais de desova do mosquito.

Política para erradicar mosquito era truculenta

Política para erradicar mosquito era truculenta
ARQUIVO/ESTADÃO CONTEÚDO

Mas surtiu efeito: em 1907 a epidemia foi considerada erradicada. Desde o fim dos anos 1920, praticamente não houve nenhum surto epidêmico nas cidades. E desde 1937 a vacina está disponível. O último registro oficial de transmissão do vírus em uma cidade brasileira é de 1942. “A população era muito menor do que hoje, e a política sanitarista era totalmente truculenta, inaceitável atualmente”, pondera a historiadora da Ciência Danielle Sanches, da FGV (Fundação Getulio Vargas). “Mas a gente perdeu um pouco o bonde dessa busca pelo saneamento.”

Na avaliação do historiador Marcos Cueto, da Casa de Oswaldo Cruz, passou a predominar no País uma atitude passiva e tolerante. Segundo o também editor científico da revista História, Ciências e Saúde — Manguinhos, não houve uma política de vacinação entre a população urbana justamente no momento em que as cidades mais cresceram. “A febre amarela urbana inspira um pânico por causa dessa memória coletiva, essa lembrança inconsciente desses tempos calamitosos da epidemia urbana”, afirma o historiador Jaime Benchimol, da Fundação Oswaldo Cruz. “E existe um risco de fato de uma volta da doença. Temos conhecimento de sobra, mas não temos é vontade política de enfrentar a situação.”

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Porto de Santos confirma que embarque de carga viva já está suspenso por tempo indeterminado

Na última quinta-feira (11), noticiamos que o Porto de Santos havia anunciado a suspensão do embarque e desembarque de carga viva em seus terminais (relembre aqui). O documento apresentado, porém, não mostrava uma data a partir da qual a medida valeria. Na sexta-feira (12), contudo, a Assessoria de Comunicação Social do Porto de Santos emitiu […]

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Como um câncer aos 37 anos mudou minha vida

Carly Appleby teve câncer diagnosticado em fevereiro de 2017

Carly Appleby teve câncer diagnosticado em fevereiro de 2017
BBC BRASIL

Carly Appleby não ficou convencida quando os médicos descartaram um pequeno nódulo em seu seio, que parecia insignificante. Em fevereiro de 2017, ela foi diagnosticada com câncer de mama em estágio 3, localmente avançado. Aqui, a jovem mãe de 37 anos descreve o impacto da notícia e sua jornada desde então.

“Fazia um dia lindo e ensolarado em Costwolds (cadeia de pequenas colinas no centro da Inglaterra) quando fui diagnosticada com câncer de mama em estágio 3 – o que significa que ele já havia se espalhado para além da área do tumor inicial, que, no meu caso, foi nos linfonodos do braço.

Ainda na clínica, sentei, com meu marido do lado. Nós dois estávamos atordoados. Tenho 37 anos, sou uma mulher em forma e saudável – ou ao menos era isso que eu pensava -, sem nenhum histórico de câncer de mama na família.

A princípio, quando fui à consulta com minha ginecologista, ela descartou a possibilidade na hora. Passou menos de cinco minutos me examinando, encontrou um nódulo no meu seio – menor do que um grão de arroz, duro. ‘Provavelmente é algo hormonal. Nada para se preocupar. Volte só se ele não for embora em algum tempo’, disse ela tranquila.

Alguns meses se passaram e eu percebo que, sim, ele ainda está ali. Volto ao médico, desta vez para ver outro ginecologista. Ele me examina melhor, mas a conclusão é a mesma: ‘Provavelmente, é um caroço gorduroso’, diz. Um sinal de que estou ficando velha, eu penso.

Mas me incomoda. Aquilo não parece certo. Meu seio esquerdo doi quando minha filha de três anos brinca comigo ou me abraça.

Pedi para ir a uma clínica especializada e levei minha mãe para me dar apoio moral. Estava nervosa.

O médico me examina e diz: ‘Não acho que seja nada para você se preocupar’. Infelizmente, não foi o que a ultrassonografia e a mamografia mostraram. Eu tinha uma área grande de calcificação – que costuma ser o sinal do início do câncer de mama. Eles fizeram uma biópsia dolorida e avaliaram os linfonodos embaixo do meu braço.

Todo esse processo teve um impacto enorme em mim. Eu nunca tinha pensado sobre minha própria morte. Eu ainda pensava em mim como uma jovem mulher, não como uma mãe de meia-idade. Mas nessa hora eu cheguei a pensar que não veria mais minha própria filha crescer.

Fiquei ansiosa sobre contar a outras pessoas sobre meu diagnóstico, mas eu queria conscientizar minhas amigas sobre o problema, então decidi usar as redes sociais. As respostas de apoio se multiplicaram.

O tratamento começou logo. Eu precisava de seis ciclos de quimioterapia, tinha que remover glândulas linfáticas de meu braço esquerdo, fazer uma mastectomia e, em seguida, radioterapia. Seria um longo ano, mas, ao menos, eu esperava estar livre do câncer no final dele.

O primeiro ciclo de quimioterapia não foi tão assustador quanto imaginei. Outros remédios foram aplicados em injeções lentas em uma cânula na minha mão. Todo o processo demorava três horas – e, enquanto isso, eu bebia muito chá.

Eu me sentia péssima nos dias que se sucediam ao tratamento. Era como estar de ressaca, só que sem a parte boa de uma noite toda bebendo. Não tinha energia nenhuma, não tinha apetite, me sentia doente, com muita sede e tudo doía. Ficava muito mal e desanimada. Mas depois disso, começava a me sentir mais normal.

 

Unidade móvel de quimioterapia para tratamento de câncer

Unidade móvel de quimioterapia para tratamento de câncer
BBC BRASIL

Fiquei feliz com o início do tratamento. Eu pensava na quimioterapia varrendo o câncer para fora meio que como em um jogo de computador – como se o Pac-Man estivesse devorando todas as células ruins do câncer. Zap, zap, zap.

‘Eu vou perder meu cabelo?’, foi uma das primeiras perguntas que fiz ao médico que, obviamente, confirmou o que eu temia. Posso parecer vaidosa, mas acho que essa foi uma das coisas mais difíceis em todo o processo desde que soube do diagnóstico.

Comecei a procurar perucas. “Que tal uma peruca loira, mãe?”, perguntou minha filha. “Aí você pode ficar mais parecida comigo!”. Eu me fortaleço com o companheirismo dela. Juntas, escolhemos uma peruca de cabelo loiro e curto.

Decidimos que minha peruca precisa de um nome. Pensei em Betty ou Bertha, aí meu marido sugeriu “Chewbacca”, do Star Wars, e minha filha veio com “Hairy Maclary from Donaldson’s Dairy”, um de seus livros favoritos. A gente riu bastante indo para casa.

Alguns dias depois, cortei o cabelo o mais curto possível. Queria diminuiu o choque que sentiria quando começasse a cair. Faz bem quando você está no controle disso.

Mandei à família e aos amigos a foto do meu cabelo curtinho. “Você parece mais jovem”, disse minha irmã. Não acreditei nela.

Em todo o processo, minha filha parecia não estar entendendo muito bem o que estava acontecendo. Ela me perguntou se também iria perder cabelo e disse que não queria me ver careca. “Quem queria?”, eu penso comigo mesma. Decidimos comprar uma peruca de brinquedo para ela.

Mas ela ainda ficava confusa com a quantidade de presentes que recebia. Houve uma onda enorme de cartões, flores, mensagens de esperança…e comida! Muita comida deliciosa! É engraçado como as pessoas reagem de forma diferente a essas notícias que todos temos que processar.

Meses depois, eu não me reconhecia mais no espelho. Inchada por causa dos esteroides, não tinha mais cílios, nem sobrancelhas, e estava careca.

 

Carly Appleby usou essas perucas para esconder a queda de cabelo

Carly Appleby usou essas perucas para esconder a queda de cabelo
BBC BRASIL

Eu olhava invejosa para a cabeça do meu marido e dizia: “Mal posso esperar para ter a mesma quantidade de cabelo que você!” Nós dois ríamos – ele nem tem muito cabelo, mas já tinha mais do que eu.

No dia da cirurgia, eu fiquei um pouco vulnerável por ser operada sem ter nenhum cabelo. Eu estava sempre com lenços na cabeça ou então com minhas perucas – nós demos o nome de Betty para uma e Brunetti para outra. Mas eu não podia ter nenhuma delas comigo na cirurgia.

Quando voltei dela, não conseguia me mexer. Minhas pernas estavam cobertas por uma manta, que se move para cima e para baixo para evitar a coagulação do sangue. Tinha um tubo de oxigênio no meu nariz e eu estava com um catéter. No meu braço havia um dreno, e o líquido dentro dele me lembrava um milkshake de morango.

Eu podia apertar um botão para aliviar a dor, mas eu não reagia bem à morfina.

Optei pela reconstrução imediata do meu seio, o que significava um expansor de silicone temporário. Quando olhei pela primeira vez para o meu peito após a cirurgia, fiquei decepcionada em ver que estava praticamente reto. O implante iria inflar gradualmente para esticar a pele restante.

Minha cirurgiã disse que a operação havia sido bem-sucedida e que ela não detectara mais traços de tumor. Ela me visitava duas vezes durante o turno dela, parecia realmente se importar comigo – tinha mais ou menos a minha idade.

Na recuperação, eu tinha dificuldades para me mexer, para dormir e me vestir, então fiquei no hospital por cinco dias. Meu marido me visitava com minha filha, que fez quatro anos nesse meio tempo. Ela insistia em carregar meu dreno para o banheiro para mim. Ele tinha que me acompanhar em todos os lugares. Até que finalmente o removeram do meu braço – mas a dor que você sente quando isso acontece é como se alguém tivesse puxando uma corda de dentro de você.

Nas semanas seguintes, meu expansor no peito foi inflado com 50 ml de soro injetadas de cada vez . “Quantas são necessárias?”, eu perguntei. “Quatrocentas”, respondeu minha médica, “o peso do seu antigo seio”.

“Então há uma ciência por trás disso”, repliquei. Nós duas rimos na hora.

Mas eu fiquei chateada ao ver minha cicatriz. Não tinha cabelo, não tinha peitos, não tinha menstruação. O câncer de mama realmente rouba tudo o que é feminino em você. Mas eu estou viva! E o câncer já está fora de mim.

 

Carly Appleby comemorou quando os cílios voltaram a crescer

Carly Appleby comemorou quando os cílios voltaram a crescer
BBC BRASIL

Eu também tenho o conforto das muitas mulheres jovens que também estão passando pela mesma situação. A Younger Breast Cancer Network (Rede Jovem de Câncer de Mama, em tradução livre) é um grupo online com mais de 3 mil mulheres com menos de 45 anos que compartilham suas experiências umas com as outras.

Outro dia, olhei no espelho e vi que meus cílios tinham voltado. Que momento incrível! Meu cabelo também começou a crescer de novo. Aos poucos, minha energia está voltando.

Cinco semanas depois da minha cirurgia, eu soube que havia tido uma resposta patológica completa. Era a melhor notícia possível! Significa que não há mais nenhum sinal de câncer nem no seio, nem em nenhum lugar. O tumor foi completamente erradicado pela quimio. Pac-Man realmente devorou todas aquelas células cancerosas.

Leva um tempo para você se acostumar com o fato de que não há mais evidência nenhuma da doença depois de meses de ansiedade.

Tenho uma tomografia agendada para fazer a preparação para a radioterapia e minha primeira tatuagem: três pequenos pontos verdes para que os técnicos possam saber onde alinhar a aplicação.

Também tomo injeções de quimio a cada três semanas na coxa e comecei a fazer um tratamento hormonal que fará parte da minha rotina diária pelos próximos 10 anos, uma tentativa de impedir o câncer de voltar.

Mas tudo isso combinado faz com que eu tenha sintomas de menopausa. As ondas de calor e as noites de suadeira são mais duas coisas que estou tendo que lidar aos 30 anos.

 

Carly Appleby tocando o sino para celebrar o fim do tratamento

Carly Appleby tocando o sino para celebrar o fim do tratamento
BBC BRASIL

Passei por 15 sessões de radioterapia, indo todos os dias ao hospital para o tratamento. Nas redes sociais, descobri que muitos pacientes tocavam um sino no dia que terminavam a última sessão. Consegui que instalassem um na unidade oncológica do hospital onde eu estava e logo bati o sino bem alto para marcar o fim do meu tratamento – todos aplaudiram em volta. Não acredito que acabou!

Alguém me disse uma vez que ter câncer faz você perceber o quanto é amada. Agora que acho que cheguei ao fim dessa jornada, posso dizer que isso é a mais pura verdade.”

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5 métodos e substâncias surpreendentes usados no passado para aliviar a dor

Ilustração de um médico antigo

Ilustração de um médico antigo
BBC BRASIL

Ter à disposição um comprimido para aliviar a dor é algo bastante moderno. No entanto, a dor tem sido parte da existência humana ao longo de nossa história.

Nos séculos passados, era preciso apelar para substâncias como éter, animais como peixes elétricos e até procedimentos como um enema com fumaça de tabaco.

Confira alguns destes métodos.

1. Éter

O composto conhecido como éter, ou éter etílico, já era usado muitos séculos antes da sua eficácia como anestésico ser conhecida.

Os seus principais usos medicinais eram o tratamento de infecções pulmonares e do escorbuto – embora o composto também fosse usado como uma droga recreativa.

 

O clorofórmio acabou substituindo o éter

O clorofórmio acabou substituindo o éter
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Foi precisamente esse uso que levou à sua descoberta como analgésico.

Um médico chamado Crawford Long percebeu que seus amigos, quando se entorpeciam com éter, paravam de sentir dor quando feridos ou agredidos.

Ele começou a explorar as possibilidades do uso do éter durante intervenções médicas. A substância passou a ser usada como anestésico em 1842.

Embora seja relativamente seguro, o éter pode causar náuseas e vômitos – e por isso deixou de ser usado a partir do início do século 20.

O éter é também inflamável, outra característica que contribuiu para o fim do seu uso.

Por tudo isso, ele foi substituído pelo clorofórmio, que também tem a vantagem de ter uma ação muito mais rápida.

2. Cascas de salgueiro

As cascas de salgueiro foram usadas na Mesopotâmia a partir do ano 4.000 a.C. e na China e na Europa a partir de 400 a.C. Ela era mastigada para tratar da febre e de inflamações.

Hoje, ela está comercialmente disponível em cápsulas, em pó ou em estado bruto. Acredita-se que funcione para combater dores de cabeça, dores causadas por artrite óssea e dores na região lombar.

 

O princípio ativo da casca de salgueiro é o mesmo da aspirina

O princípio ativo da casca de salgueiro é o mesmo da aspirina
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Seu ingrediente ativo é o mesmo da aspirina, cujo princípio químico é o ácido acetilsalicílico e tem em sua origem a salicina, presente na casca da árvore.

A salicina funciona quando combinada com outros compostos presentes na casca: flavonóides e polifenóis.

Alguns estudos sugerem que esta mistura pode ser tão efetiva quanto a aspirina no alívio da dor e de inflamações, e em doses muito menores.

Seus efeitos colaterais são geralmente suaves e acredita-se que seu efeito negativo no sistema gastrointestinal possa ser menor que o anti-inflamatório ibuprofeno, por exemplo.

No entanto, está documentada também a possibilidade desta mistura, usada durante uma infecção viral, causar a Síndrome de Reye, uma doença rara que pode levar a danos no cérebro e no fígado, assim como a aspirina.

3. Esponja soporífera

A esponja soporífica, usada na Europa entre os séculos 11 e 17, foi a antecessora dos anestésicos atuais. Seu uso consistia em molhar uma esponja do mar em uma mistura de extratos de plantas e depois secá-la ao sol.

Em seguida, a esponja era mergulhada em água quente e colocada sob o nariz do paciente antes da cirurgia.

 

As esponjas marinhas secavam ao sol

As esponjas marinhas secavam ao sol
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Para acordá-lo após a operação, a esponja era mergulhada em vinagre quente.

A receita original dizia que a mistura de extratos de plantas deveria incluir ópio, mandrágora, cicuta e meimendro (uma planta conhecida por seu efeito narcótico).

Embora ao longo dos séculos outros ingredientes tenham sido acrescentados para tentar aumentar o efeito sedativo, estes quatro ingredientes originais sempre foram mantidos.

Há relatos de médicos escritos ao longo dos séculos sobre seus resultados, e hoje sabemos que os quatro ingredientes de fato tinham efeitos sedativos e paralisantes. Por isso, eles podem ser considerados eficazes.

Ao longo do tempo, no entanto, a solução perdeu popularidade.

4. Enema com fumo de tabaco

No final dos anos 1700, pensava-se que para ressuscitar as pessoas que se afogavam, elas precisavam ter o corpo aquecido e a respiração estimulada.

 

Fumo de tabaco no ânus? Não, obrigado

Fumo de tabaco no ânus? Não, obrigado
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Na Inglaterra, médicos adaptaram um método usado pelos nativos americanos para tratar da constipação em cavalos: a inserção de fumo de tabaco no reto.

Naquela época, o tabaco havia acabado de chegar ao país e acreditava-se que o fumo curava a constipação, a dor do estômago, secava o corpo internamente e proporcionava estímulos.

No início, utilizava-se um cachimbo, até que foram percebidos os riscos causados pela inalação de chumbo – levando à criação de um conjunto de equipamentos, como tubos mais longos.

Pessoas que ofereciam tratamentos com enema de tabaco começaram a se instalar nas margens do rio Tâmisa, em Londres. O procedimento passou a ser usado até para tratar dores de cabeça.

Por vola de 1811, cientistas descobriram os efeitos negativos da nicotina e de outras substâncias contidas no tabaco no organismo humano, e a prática foi abandonada.

5. Peixe elétrico

No Egito Antigo, um método para curar dores nas articulações ou dores de cabeça consistia no uso da estimulação nervosa fornecida pelos peixes elétricos.

 

'Tratamento' com peixes elétricos tem alguma semelhança com método atual, a eletroestimulação percutânea

‘Tratamento’ com peixes elétricos tem alguma semelhança com método atual, a eletroestimulação percutânea
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Isto era feito da seguinte maneira: ou a parte do corpo dolorida era posicionada em uma tigela ao lado do animal, ou o peixe era diretamente colocado em contato com o paciente.

Ele tem alguma semelhança com um método atual conhecido como eletroestimulação percutânea – em que eletrodos ou agulhas finas são usados na pele para emitir pequenos impulsos elétricos.

No entanto, existem controvérsias sobre a eficácia da estimulação elétrica como método para aplacar alguns tipos de dor.

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As mulheres indianas que estão descobrindo novos medicamentos dentro de suas casas

Tanusree Chaudhuri (no centro) com duas de suas colegas de pesquisa em trabalho remoto

Tanusree Chaudhuri (no centro) com duas de suas colegas de pesquisa em trabalho remoto
BBC BRASIL

Tanusree Chaudhuri, de 34 anos, estava grávida de seu primeiro filho quando seu supervisor lhe disse que ela teria que abandonar seus sonhos. Ela estava fazendo um doutorado em biologia computacional e queria ajudar a melhorar a saúde das pessoas.

“Ele me disse: você é casada agora, por que precisa de um doutorado? Você tem que cuidar da sua família “, lembra.

Os planos da jovem incluíam trabalhar na descoberta de novos medicamentos e continuar seus estudos em um prestigiado instituto perto de Calcutá, na Índia.

Mas quando ela se casou e se mudou para Hyderabad, por conta do trabalho do marido, Chaudhuri se deparou com a resistência cultural.

“É esperado das mulheres casadas o cuidado com a família porque, sem a família, não somos nada. Não se espera que desejemos o privilégio de pensar e fazer pesquisa.”

Laboratório online

Mesmo não sendo estimulada a continuar, a jovem encontrou num laboratório virtual online a oportunidade de participar, mesmo de casa, das pesquisas.

A plataforma Open Source Drug Discovery (OSDD) foi criada pelo governo indiano e permitia que os cientistas colaborassem remotamente, buscando moléculas que pudessem ser transformadas em medicamentos úteis.

Trabalhar em casa se adequava às necessidades de Chaudhuri e de seu bebê – além de ajudá-la a chegar mais perto do seu sonho.

“Conheci muitas pessoas diferentes (virtualmente). Lembro-me de uma garota que era de um lugar muito remoto. Mas conseguimos trabalhar juntas porque nos falávamos pelo Skype. Nunca nos conhecemos pessoalmente”, lembra a indiana.

 

Ayisha Safeeda veio de uma família tradicional, mas conseguiu intercalar os estudos com a amamentação do filho

Ayisha Safeeda veio de uma família tradicional, mas conseguiu intercalar os estudos com a amamentação do filho
BBC BRASIL

Existem muitas outras plataformas de código aberto na comunidade científica, cada uma com sua própria especialidade, desde a análise genômica até pesquisas sobre o câncer.

Muitas mulheres em toda a Índia e em outras economias emergentes estão descobrindo nelas uma ferramenta para libertação.

Depois que a plataforma do governo indiano fechou em 2016, Chaudhuri e suas colegas começaram a trabalhar para outra organização, a Open Source Pharma Foundation (OSPF), uma parceria entre profissionais da indústria farmacêutica e acadêmicos.

O objetivo do programa é descobrir medicamentos acessíveis, e cientistas de todo o mundo trabalham nela remotamente.

Entre os livros e a amamentação

Ayisha Safeeda, de Kuttichira, no estado de Kerala, vem de uma família muçulmana muito tradicional e vive em uma área remota. Mas ela conseguiu seu diploma de mestrado através de uma plataforma de pesquisa colaborativa.

“Mesmo que eu amamente meu bebê, posso ler pesquisas e trabalhar no meu laptop. Então, as mulheres que têm um grande potencial mas estão atadas à família devem dar este passo”, diz Safeeda.

Chaudhuri desenvolve softwares para plataformas colaborativas em diferentes disciplinas, como Biologia e Física.

Rakhila Pradeep, outra pesquisadora virtual do Estado de Tamil Nadu, diz que ela sempre adorou pesquisas, mas se viu diante da impossibilidade de acessar instituições de ensino.

“O esforço diário para acessar universidades distantes da nossa aldeia é uma jornada pesada e não é prática para nós”, afirma.

“Não conseguimos nos afastar de nossos filhos e parentes idosos por muitos dias.”

 

Rakhila Pradeep diz que a distância de sua aldeia rural dos centros de pesquisa a impediu por anos de fazer o que mais gosta: estudar

Rakhila Pradeep diz que a distância de sua aldeia rural dos centros de pesquisa a impediu por anos de fazer o que mais gosta: estudar
BBC BRASIL

O especialista em biologia computacional UC Jaleel supervisionou muitos dos projetos realizados por estas qualificadas profissionais, e diz que elas são uma fonte inexplorada de talentos.

Relembrando seus dias de faculdade, ele diz que normalmente as estudantes superavam em número – e desempenho – seus contemporâneos homens. Mas em algum momento elas desapareceriam.

“Essas mulheres eram altamente educadas, mas a maioria delas acabaram como donas de casa depois de se casar.”

Jaleel acredita firmemente no modelo das plataformas abertas, particularmente se elas puderem levar medicamentos mais baratos às famílias mais pobres do mundo.

“O objetivo comum é reduzir o tempo e o custo da descoberta de medicamentos, conectar o potencial humano desconectado e mobilizá-lo para fins humanitários”, diz ele.

Conectividade ainda é obstáculo

Tanusree Chaudhuri e suas filhas

Tanusree Chaudhuri e suas filhas
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Els Torreele, diretora executiva da campanha de acessibilidade da organização Médicos Sem Fronteiras, acredita que ações colaborativas podem ter um papel importante na descoberta de medicamentos acessíveis.

“As colaborações abertas de pesquisa são uma estratégia crucial para avançar e possivelmente acelerar a inovação médica, inclusive na área de doenças negligenciadas, onde o compartilhamento de conhecimento é ainda mais crítico do que em outros campos.”

A Open Source Pharma Foundation, onde trabalha Tanusree Chaudhuri, está em seus estágios iniciais. Por isso, ainda enfrenta desafios como o pouco acesso à internet em muitas áreas rurais.

O financiamento é outra preocupação, embora a fundação tenha recebido verbas do fundo indiano Tata Trusts.

Mas Chaudhuri, que não só tem um título como PhD mas agora é professora assistente, diz que ela e suas alunas planejam trabalhar para que plataformas colaborativas se expandam.

“Sonhar é proibido para para nós, meninas indianas, a menos que tenhamos esse tipo de oportunidade”, afirma.

“Precisamos ter nossos próprios sonhos e nosso próprio sustento.”

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