Como toda uma cidade ajudou a tornar mais feliz o primeiro menino diagnosticado com autismo

Nascido em Forest, no Estado do Mississippi, Donald Grey Triplett era uma criança profundamente isolada
Arquivo pessoal/BBC Brasil=

Depois do filme Rain Man, uma grande história sobre autismo que poderia ser retratada nas telas de cinema seria a vida de Donald Grey Triplett. Aos 82 anos e vivendo em uma pequena cidade dos Estado Unidos, ele foi um dos protagonistas dos primórdios deste tipo de transtorno quando ele começou a ser publicamente reconhecido como tal.

O relatório da pesquisa científica que primeiro colocou o autismo no mapa, ao mostrá-lo como algo diagnosticável, lista Donald como o “caso 1” entre 11 crianças que foram estudadas pelo psiquiatra Leo Kanner, cristalizando a ideia de que se estava diante de um novo tipo de condição médica que não estava ainda nos livros, sendo chamada primeiro de “autismo infantil”.

Nascido em 1933 em Forest, no Estado do Mississippi, e filho de um advogado e uma professora, ele era uma criança profundamente isolada, que nunca havia correspondido a um sorriso de sua mãe ou reagido à sua voz. Parecia estar sintonizado a uma realidade própria, dotado de uma lógica particular e uma forma caracteristicamente sua de usar seu idioma, o inglês.

Donald podia falar e imitar o som de palavras, mas elas pareciam estar vazias de sentido. Na maioria das vezes, ele apenas ecoava o que alguém havia dito antes. Por um tempo, pronunciava continuamente as palavras “vinho Trumpet” e “crisântemo”, assim como a frase: “Eu poderia colocar uma pequena vírgula”.

Seus pais tentaram quebrar essa barreira, sem sucesso. Donald não demonstrava interesse nas outras crianças que eles traziam para brincar com o menino, nem olhava para o Papai Noel quando ele trazia uma surpresa para ele. E, ainda assim, eles sabiam que ele estava ouvindo e que era inteligente.

Aos dois anos e meio de idade, durante um Natal, ele cantou sozinho e com afinação perfeita músicas que havia ouvido de sua mãe uma única vez. Sua memória fenomenal permite que ele lembre a ordem das miçangas que seu pai havia colocado aleatoriamente em cordão.

Mas esses dons não impediram que ele fosse colocado em uma instituição, por ordens médicas. Era sempre assim naquela época para crianças que desviavam do que era “normal”. As recomendações médicas de rotina incluíam pedidos para que os pais apagassem seu filho ou filha da memória e seguissem com suas vidas.

Em meados de 1937, quando Donald tinha 3 anos, seus pais o mandaram para longe, mas não se esqueceram dele. Visitavam o menino uma vez por mês, provavelmente debatendo ao longo do percurso para casa se deveriam trazê-lo de volta consigo.

Foi o que fizeram no fim de 1938, quando o levaram para se consultar com Kanner na cidade de Baltimore, no Estado de Maryland. O médico ficou frustrado a princípio. Ele não sabia em qual “caixa” psiquiátrica Donald poderia ser colocado, porque nenhuma das existentes parecia adequada.

Mas após várias consultas com o menino e de ver outras crianças se comportarem de forma igual, ele publicou seu estudo pioneiro que estabeleceu os padrões para obter um diagnóstico desta nova condição.

História

A partir de então, a história do autismo se desdobrou ao longo de vários capítulos com o decorrer das décadas, com reviravoltas dramáticas ou bizarras e médicos, educadores, ativistas e os próprios autistas hora sendo taxados como heróis ou como vilões.

No entanto, Donald não se envolveu em nada disso. Depois de Baltimore, ele havia voltado para casa, onde passou discretamente o resto de seus dias.

Fomos atrás dele em 2007 como parte da pesquisa para nosso livro, no qual ele é um dos principais personagens, e ficamos impressionados ao saber como sua vida havia sido.

Ainda vivo hoje e saudável aos 82 anos, ele vive em sua própria casa, onde cresceu, dentro de uma comunidade segura, onde todos os conhecem, rodeado por amigos com quem se encontra regularmente, um Cadillac para percorrer as redondezas e um hobby: o golfe.

Isso quando não está desfrutando de sua outra paixão, viajar. Sozinho, ele já rodou os Estados Unidos e conheceu alguns outros países. Tem um armário repleto de álbuns de fotos de suas aventuras.

Ele é o retrato do aposentado feliz – bem distante da vida em uma instituição à qual ele quase foi sentenciado e na qual ele teria esmorecido sem ter feito nada do que realizou.

O crédito disso deve ser dado em grande parte à sua mãe. Além de levá-lo para casa, ela tentou de forma incansável conectá-lo com o mundo à sua volta, dar a ele uma linguagem para se comunicar e fazer com que ele pudesse cuidar de si próprio.

Algo neste esforço funcionou, porque, quando chegou à adolescência, ele conseguiu frequentar uma escola comum e, depois, ir para a faculdade, onde se formou em Francês e Matemática. O crédito deste resultado é do próprio Donald, por sua inteligência inata e sua capacidade de aprendizado que permitiu realizar todo seu potencial.

‘Um de nós’

Mas vimos outra coisa quando fomos a Forest – e é neste ponto que o filme sobre Donald ficaria interessante. A própria cidade teve um papel no excelente destino de Donald. Seus cerca de 3 mil habitantes fizeram uma escolha provavelmente inconsciente sobre como tratariam aquele menino estranho que vivia entre eles. Eles decidiram aceitá-lo, considerá-lo “um de nós” e protegê-lo.

Sabemos disso porque, quando o visitamos pela primeira vez e começamos a perguntar pela cidade sobre Donald, ao menos três pessoas nos disseram que iriam atrás de nós e se vingariam se fizéssemos algo com Donald. Isso nos disse muita coisa sobre sua relação com ele.

Com o tempo, conforme conquistamos a confiança das pessoas, mais detalhes vieram à tona sobre como eles o apoiaram ao longo dos anos. Seu livro de formatura da escola está cheio de recados de colegas dizendo como ele é um grande amigo. Algumas meninas até pareciam gostar dele.

Descobrimos que sua participação na peça da escola foi muito celebrada, que as pessoas não consideravam estranha sua obsessão por números, mas um sinal de que ele era algum tipo de gênio.

Falamos com um homem que Donald conheceu na escola e que, hoje, é um pastor. Ele tentou ensinar Donald a nadar em um rio e, quando falhou, buscou mostrar a ele como falar de forma mais fluída, o que era uma causa quase impossível.

Isso porque Donald ainda tem autismo. O transtorno não foi embora. Mas o poder que isso tinha de limitar sua vida foi aos poucos sendo superado, ainda que ele mantenha algumas obsessões e fale de forma um pouco mecânica e não consiga travar uma conversa que vá além da troca de um punhado de gentilezas. Mesmo com tudo isso, no entanto, ele tem uma personalidade formada, é uma companhia agradável e um bom amigo.

O que a história de Donald sugere é que pais que ouçam pela primeira vez que seu filho é autista devem entender que, com este diagnóstico, o destino nunca está definitivamente traçado. Cada indivíduo tem uma capacidade própria de crescer e aprender, como Donald fez, mesmo que ele leve mais tempo para fazer certas coisas do que a maioria das pessoas.

Por exemplo, ele aprendeu a dirigir quando já estava com quase 30 anos. Mas, agora, a estrada ainda pertence a ele. Literalmente.

*John Donvan e Caren Zucker são autores de “In A Different Key: The Story of Autism” (Em um tom diferente: A História do Autismo, em inglês)

Powered by WPeMatico

Leia Mais

Segunda Virada da Saúde reúne dezenas de pessoas em caminhada em SP 

Segunda Virada da Saúde começa neste domingo (3) em SP
Thinkstock

Uma caminhada pela Avenida Paulista na manhã deste domingo (3), da sede da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) até a Praça do Ciclista, marcou a abertura da 2ª Virada da Saúde.

O evento ocorre até o dia 10 de abril com atividades culturais e esportivas por toda a cidade e devido ao Dia Mundial da Saúde, lembrado no dia 7 de abril. Além disso, também serão dadas orientações sobre prevenção de doenças, como a dengue e a gripe H1N1, e ministrados cursos de primeiros socorros.

O objetivo do evento é estimular atividades físicas e práticas corporais para promover a saúde e evitar doenças. Segundo o médico Victor Matsudo, coordenador geral do Agita SP e da Rede Mundial de Atividade Física, o sedentarismo é o principal fator de risco na população.

— Não praticar exercícios físicos mata 5,3 milhões de pessoas no planeta todos os anos. O sedentarismo precisa ser combatido porque, além disso, custa caro. Ele é considerado, para a Organização Mundial de Saúde, o inimigo público número um.

Segundo Matsudo, o ideal é que os adultos pratiquem, pelo menos, 30 minutos de atividade física por dia, “que pode ser feita de uma só vez ou de forma acumulada, em três blocos de dez minutos ou dois blocos de 15 minutos”.

— Se não tiver chance de fazer isso todos os dias, fique em pé. Isso já combate o sedentarismo. Ficar sentado é péssimo. Para cada trinta minutos sentados, [deve-se ficar] cinco minutos em pé.

Ele recomenda também que as crianças façam atividades físicas, de cerca de uma hora por dia.

— Precisamos incentivar que as crianças façam 60 minutos [de exercícios físicos] todos os dias porque as crianças brasileiras estão oito horas por dia sentadas em frente à televisão ou ao computador. E isso significa risco de obesidade. O Brasil é hoje o vice-campeão em obesidade infantil e precisamos combater isso agitando a agenda dessa criançada.

Segundo a secretária-adjunta de Saúde da cidade de São Paulo, Celia Bortoletto, a principal ideia da Virada da Saúde é despertar a questão da prevenção.

— Saúde não é só assistência. Saúde é muito mais do que isso. Podemos fazer várias práticas para nos cuidarmos, para cuidarmos do corpo e sermos felizes porque o mais importante da saúde é isso.

Powered by WPeMatico

Leia Mais